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Maximus Festival em São Paulo tenta juntar públicos distintos e quase dá merda

Julio Feriato

25/05/2017 21h06

Por Daniel Pacheco / Fotos: Ricardo Ferreira (Revista Roadie Crew)
Agradecimentos: Caio Lima

O texto representa opinião do autor, não do Heavy Nation ou dos editores

O Maximus festival chegou à sua segunda edição e, assim como no ano passado, trouxe uma estrutura baseada nos grandes festivais europeus: três palcos, dois principais (Maximus e Rockatansky) e um secundário (Thunder Dome).

A decoração do evento se baseou no universo do filme Mad Max, mostrando nos portões de entrada barris de metal enferrujados empilhados em andaimes. Na parte superior, era possível ver o símbolo do festival e lanças-chamas que cuspiam fogo esporadicamente. Em frente aos palcos, fomos brindados com totens de demônios esculpidos em pedra, além de uma parede de escalada e um trono feito de peças de carro (e que acumulava uma fila gigante para fotos). A estrutura também ofereceu diversas opções de restaurantes e estandes de bebidas, todos cobrados a partir de uma moeda específica (MTL), que tinha uma taxa de conversão aproximada à do euro, e podia ser carregada diretamente do seu celular com um número de cartão de crédito cadastrado previamente.

Seria humanamente impossível assistir a todos as bandas do festival, pois o palco Thunder Dome receberia shows simultâneos aos dos palcos principais.

Ao entrar no Autódromo de Interlagos, já podíamos ouvir de longe os riffs brutais dos Hatebreed. Os americanos fizeram um show trazendo os maiores sucessos da sua carreira e, para os fãs, não havia nada de que reclamar. Logo na segunda música mandaram a videogaimistica “Destroy Everything”, que levantou uma nuvem de poeira acima da cabeça dos presentes. O vocalista Jamey Jasta, apesar da baixa estatura, tem uma presença de palco brutal, não parando nem por um segundo durante todos os trinta minutos do set. Fecharam com a emblemática “I Will be Heard” e deixaram o palco ovacionados pelo público.

O intervalo entre os shows dos palcos principais era algo quase inexistente, pois enquanto uma banda tocava a equipe da próxima já montava o seu show e preparava todo o palco para receber os músicos. Por isso, com pouco menos de dez minutos, subiam ao palco Maximus a banda alemã Bohse Onkelz, que faz um rock’n’roll cantado em alemão bastante influenciado pelo punk rock. Este show foi o primeiro a dividir o público do festival (porém não seria o último), pois a banda traz consigo um passado neo-nazista, tendo inclusive feito parte do selo Rock-O-Rama, um selo alemão especializado em música desse tipo. Houve alguns poucos fãs que se acumularam em frente ao palco, trajando camisetas de futebol personalizadas com o logo da banda (aparentemente, atualmente as letras da banda são focadas em torcidas organizadas, brigas e cerveja) e agitaram durante o set. O vocalista não trocou nenhuma palavra com o público, já o guitarrista se esforçou em alguns poucos intervalos, dizendo que era muito legal estar no Maximus, e que estava feliz de estar no Brasil.

É importante dizer que nesse show reparei que já havia pessoas trajando camisetas do Linkin Park (banda que fecharia o festival) plantadas na grade do palco, muitas delas sem comer e sem beber nada (guarde bem essa informação).

O som de sinos começa a soar no palco Rockatansky e quatro mascarados acompanhados de um papa descolado de corpse paint invadem o festival, era o Ghost. Há muitas controvérsias cercando a banda nos últimos tempos, pois chegou ao conhecimento do público que o músico Tobias Forge (Papa Emeritus) havia demitido todos os membros e os substituído por músicos contratados, porém isso não aparentou abalar as dezenas de pessoas com a cara pintada imitando a maquiagem do cara. O show é extremamente teatral e confesso que fiquei um pouco incomodado com a quantidade absurda de overdubs de vozes e instrumentos sintetizados. O set fora reduzido mas não deixou de fora músicas como “Ritual”, “Cirice”, ”Year Zero” e “Absolution”. Ao final desse show, dirigi-me para a área do palco Maximus e percebi que o número de fãs a ostentar a camiseta do Slayer havia aumentado consideravelmente.

Confesso que nunca fui um grande fã do trabalho musical de Rob Zombie, no entanto é impossível ficar parado durante uma apresentação desse cara. O cenário montado traz todo o lirismo à vida, com plataformas para cada músico e um pano de fundo com o clássico King Kong estampado em tamanho real; é como se você fosse transportado para dentro da mente doente de Zombie. O set viajou por toda a carreira do cara, desde o White Zombie (“More Human Than Human” e “Thunder Kiss ’65”) até as mais bacanas da sua carreira solo, abrindo com “Dead City Radio”, passando por “Living Dead Girl”, “Scum of the Earth” e “Well, Everybody’s Fucking in a U.F.O.” –  nesta última Zombie passou dois bonecos infláveis de alienígenas verdes para que o público os fizesse viajar até o fim da pista. O set foi encerrado com a música “Dragula” (famosa por figurar na trilha sonora do clássico filme Matrix).

Era hora de virar as cabeças para o Rockatansky e ver os Five Finger Death Punch. A princípio, a banda deveria tocar no mesmo horário do Slayer, mas devido à grande comoção do público junto à organização, os horários foram trocados para que todos conseguissem assistir aos dois shows. A banda tem muita energia ao vivo, e, durante o set, o vocalista Ivan L. Moody, chamou os fãs maquiados para subirem ao palco e cantarem junto à banda a música “Burn MF”, o que foi algo muito legal. A banda cultiva muito bem o laço que tem com seus fãs e acabou ganhando pontos pelo carisma e simpatia!

Meu amigo, se você leu essa resenha até aqui, é porque, assim como eu e muitos dos presentes, está interessado na performance dos reis absolutos do Thrash Metal, o Slayer, que segue divulgando seu último disco “Repentless”. Não tem como ser um repórter de metal imparcial quando falamos desses caras! O amor pela coisa fala muito mais alto ao ver essa lenda em carne e osso na sua frente. O público monstruoso da banda começa a empurrar rumo à frente do palco Maximus assim que as luzes do 5FDP se apagam. Lembram-se dos fãs do Linkin Park que estavam na grade durante todo o dia sem comer e beber nada? Pois então. A intro “Delusions Of Saviour” começa a soar e antes mesmo dos primeiros acordes de “Repentless” serem tocados, o massacre sem dó começa.

Não existia um lugar sequer na pista em que o mosh não reinava. Para o público thrash metal não há novidade nenhuma na situação, estamos habituados e de fato divertimo-nos com isso, mas os fãs de outros estilos que estavam por ali se assustaram. Alguns passaram mal com o calor e o empurra-empurra. Era possível ver adolescentes que estavam acompanhados das mães tentando correr desgovernados aos primeiros acordes, mas o fato é que não houve tempo de todos eles saírem e infelizmente houve alguns feridos. Não acho que a culpa seja da organização, afinal, ela  encaixou um terceiro show entre o Slayer e o Linkin Park, e todos sabemos que o público de uma banda não ficaria na pista para ver a outra.

Sem parar para respirar, emendaram o clássico da era Bostaph, “Disciple”. Confesso que prefiro o Lombardo na bateria dos caras, mas o Bostaph fez o seu trabalho muito bem, demonstrando uma técnica impecável em todas as viradas, e lá fomos nós através de “Postmortem” , “Hate Worldwide”, “War Ensemble”, “When the Stillness Comes”, “Mandatory Suicide” uma atrás da outra. É fato que Tom Araya já não se comunica muito com o público, até porque, mesmo quando ele tentava, sua voz era abafada pelo coro dos fãs clamando “SLAYER, SLAYER”,. Então, sem mais delongas, a maior surpresa da noite chegou: os caras mandaram “Fight to Death”, do clássico “Show no Mercy”, disco de estreia da banda. Não sobrou pedra sobre pedra na pista. Apesar de ainda ser estranho ver o Gary Holt segurando a posição que já foi de Jeff Hanneman, é preciso dizer que sua presença de palco era absoluta e muito mais digna de nota do que a de Arraya ou do Kerry King. Gary, sempre sorrindo e gritando as letras, trouxe uma vida nova para a banda, mas sem se esquecer do Exodus, que sempre está estampado em sua munhequeira direita. Para encerrar a apresentação, veio a já esperada “Angel of Death”, faixa que abre o canônico disco “Reign in Blood”. Fico feliz de ter visto o Slayer, mas o fato é que a idade chega para todos e, infelizmente nesse show, apesar da performance impecável, ficou claro de que não irá demorar para os caras pendurarem as guitarras.

Passada essa verdadeira tormenta, era difícil de imaginar que teríamos energia para mais alguma coisa, mas, sim, estávamos enganados, pois quando a intro “DJ Lord” começou a soar nos PAs do Rockatansky, uma multidão correu para frente do palco para apreciar a junção do Rage Against The Machine + Cypress Hill + Public Enemy. O Prophets Of Rage, que show fabuloso! De cara, os telões exibiam a bandeira da banda, com um homem erguendo o punho esquerdo e os dizerem “Power to the People”. Tom Morello e cia começaram com “Prophets of Rage”, faixa que dá nome à banda. É fato que o show foi dominado por músicas do RATM, mas elas ganharam vida nova nas vozes dos rappers Chuck D e B-Real, os quais, inclusive, no meio do show, fazem um medley monstruoso de suas carreiras com os sons: Hand on the Pump / Can’t Truss it / Insane in the Brain / Bring the Noise / I Ain’t Goin’ Out Like That / Welcome to the Terrordome / Jump Around, acompanhados apenas de DJ Lord. Do Rage rolaram as clássicas “Take the Power Back” , “Bombtrack”, “Testify”, “Bulls on Parade”, entre várias outras. Durante o cover do MC5 “Kick Out the Jams”, foram convidados os músicos do Rise Against (Tim Mcllrath e Zach Blair) para engrossarem a formação. Um show recheado de energia, discursos políticos e uma mensagem principal: recuperar o poder das mãos dos políticos e empresários, pois estes formam uma classe que visa somente ao lucro da sua exploração. Os caras deixaram o palco com a mais que popular “Killing in the name”.

Era hora dos headliners da noite, muita gente começou a ir embora, mas proporção de pessoas chegando ao festival neste horário parecia ser igual. Olhando de longe, era possível ver um mar de pessoas permeando as duas pistas à espera do Linkin Park e, após uma longa intro, “Fallout / Roads Untraveled”, os caras tomam finalmente o palco Maximus. O show dos caras é bem competente, apesar de roteirizado. As músicas são apresentadas com alta fidelidade às gravações. A banda, que ficou popular com o disco Hybrid Theory nos anos 2000, trouxe uma sequência de músicas que cobria toda a sua carreira, incluindo: “Somewhere I Belong”, ‘Good Goodbye”, “What I’ve Done”, “Numb”, “Papercut” entre muitas outras. A última música a ecoar dos PA’s nesta edição do Maximus foi “Bleed it Out” deixando um público extasiado com as apresentações presenciadas no dia.

Chegava ao final mais uma edição excelente do Maximus Festival. A organização do evento está definitivamente de parabéns, pois o padrão foi realmente de um nível excepcional, porém algumas críticas ainda são cabíveis. Os valores, tanto dos ingressos quanto da alimentação dentro do evento, encontraram-se  um pouco fora da realidade da maioria dos brasileiros e poderiam ser melhorados, pois com certeza haveria uma procura ainda maior que compensaria a diminuição da margem individual. Outro ponto que pode ser melhorado são as bandas nacionais. Os horários oferecidos às poucas delas no evento era pouco favorável. Temos um celeiro de bandas gigantesco no nosso país e muitas poderiam realmente mudar o rumo de suas carreiras ao tocar em um festival desse porte. Antes de uma grande banda como o Slayer, Rob Zombie ou mesmo o Linkin Park, mesmo que desconhecidas, o público com certeza não iria se importar, desde que os estilos fossem parecidos. Ficam aí  pequenas dicas para as próximas edições deste já excelente festival!

Sobre os Autores

Julio Feriato: Formado em Letras, sempre almejou ser jornalista especializado em música. Para suprir tal anseio, editou nos anos 90 o fanzine “Shadows” e foi um dos principais colaboradores do site “Metal Attack” em meados dos anos 2000.

Maurício Gaia Fernanda Lira: Começou ouvir heavy metal por influência de seus pais e cursou Jornalismo na Faculdade Cásper Libero, em São Paulo. Além do Heavy Nation, Fernanda também é baixista e vocalista da banda thrash metal Nervosa.

Sobre o Blog

Heavy Nation é um programa da Rádio UOL especializado em heavy metal. O programa nasceu da necessidade de divulgar bandas independentes, que não encontram espaço na grande mídia, e também traz clássicos do estilo. No blog Heavy Nation, você encontra matérias e entrevistas que não tem espaço no programa, mas que são chamativas tanto para os headbangers quanto ao público que não acompanha a cena atentamente.

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